sábado, 15 de fevereiro de 2014

Reflexão para uma Ética responsável e à altura dos desafios contemporâneos a respeito da Intersexualidade

         Contra a apatia dominante e confusão generalizada acerca do que é bom ou mau, certo ou errado, em termos éticos e morais a respeito dos intersexuais, apresentaremos neste texto uma reflexão que visa criar clareza e motivação para um comportamento ético e moral responsável e à altura dos desafios contemporâneos a respeito da intersexualidade.
Fonte: http://bit.ly/MYhVEM
         Uma vez que se pretenda fazer uma reflexão ética concernente ao tema da intersexualidade neste trabalho, é de fundamental importância definir o conceito de ética, fazendo uma breve diferenciação com o termo moral - uma vez que ambos os termos se relacionam e tendem a ser confundidos um com o outro. Etimologicamente, o termo moral vem do latim mos ou mores, que significa “costume” ou “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Já ética vem do grego ethos que significa “modo de ser” ou “caráter”, enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem. Originariamente, portanto, ambos os termos não correspondem a uma disposição natural, mas sim a algo adquirido ou conquistado por hábito.
         Segundo Martins (1998), a ética se diferenciaria da moral por meio do respeito à singularidade dos sujeitos, ou às diferenças que subsistem à revelia das tentativas de padronização pretendidas pelas regras supostamente universais. Nesse sentido, a moral se colocaria contra a singularidade e ao lado da oposição entre o indivíduo e a sociedade, pois obrigaria o sujeito a se submeter a um critério externo, a ceder alguma coisa de sua singularidade em prol da normalização das condutas. A psicanálise mostra que somos resultado e expressão de nossa história de vida. Não somos autores nem senhores de nossa história, mas efeitos dela. O sujeito ético, isto é, a pessoa, só pode existir se for consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos e capacidade para deliberar e decidir, ser responsável e ser livre.
         As discussões acerca do indivíduo intersexual, nas postagens anteriores, já nos mostraram que aparentemente os intersexuais se encontram num espaço perdido, descentralizado, onde eles se veem obrigados a tomar o modelo dicotômico (binário) como referência. Ou seja, neste contexto, o discurso vigente dominante provoca a sociedade (que desconhece do assunto) a tomar a noção de binarismo (homem/mulher) como uma referência estática e controladora, onde todo o “estranho”, o “mutável”, deve ser visto e controlado pelo pressuposto de uma ideologia que trás uma garantia única de certeza. A temática da intersexualidade se fez não apenas como centro de nossas discussões, mas também como referência para todo tipo de pensar e agir que, predominantemente, fundamenta uma ética contemporânea.
         Ao utilizarmos o referencial teórico da psicanálise, sob a ótica de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, veremos que ao falarmos de ética em psicanálise estamos falando de algo que ultrapassa a barreira do bem e do mal, estamos falando de uma ação do sujeito que considera o seu próprio desejo. Kehl (2002) afirma que a Psicanálise não é apenas uma proposta ética, mas um saber de dimensões humanistas que pode contribuir para a construção de uma ética mais adequada às condições das sociedades contemporâneas, já que considera o sujeito moderno em suas dimensões inseparáveis de conflito e liberdade, de solidão e sociabilidade.
         O que queremos trazer a reflexão é que a ética do desejo (do intersexual) possa ser entendida como uma resistência à crescente massificação de um discurso sob seu corpo e consequentemente sob sua subjetividade. Que também se possa pensar uma ética como possibilidade de reflexão, sobre a atuação dos profissionais envolvidos, na decisão de cirurgias precoces de intersexuais. No que se refere à aplicação prática das cirurgias precoces e seus efeitos produzidos ao longo do tempo, que não seja caracterizado um esquecimento sistemático do “outro” que ali está. Que esse sujeito (esse “outro”) também possa ter o direito de decidir sobre si a partir de uma posição essencialmente ética, se dando essa oportunidade com a possibilidade da não realização da cirurgia precoce nos casos possíveis, que são a maioria.
         Para uma ética responsável é imprescindível garantir a liberdade de escolha do “outro”; é imprescindível também, proteger o “outro” de ser reduzido ao “mesmo”. Em outras palavras, que esse “outro” seja recebido em sua irredutível “estranheza”. A própria definição de “sujeito ético” é que este deve “ser consciente de si e dos outros, isto é, reconhecer as pessoas como sujeitos éticos também. É também ser livre, ou seja, poder fazer de modo consciente e seguro suas escolhas, opções; sem sofrer pressão externa.” Nossa reflexão lança base para uma compreensão do sujeito intersexual baseada na responsabilidade ética, fazendo com que as pessoas se sintam estimuladas a serem “melhores”, mais responsáveis, face a complexidade da temática vigente.

Referências

KEHL, M. R. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

MARTINS, A. Relações local-global nas redes transdisciplinares: globalização e singularidade. Revista de Ciências Humanas (UGF). Rio de Janeiro. 21(1): 47-72, 1998.

revistas.unipar.br/akropolis/article/download/2841/2109

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