quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Campeã ou Campeão: Intersexual gera polemica no tênis




Em Março de 2009 uma notícia abalou o mundo do tênis e causou uma polêmica que dividiu opiniões e virou caso de justiça desportiva com petição e análise do WTA (Woman’s Tennis Association), órgão que gere o tênis a nível mundial. O que causou tanta comoção? O fato de que uma tenista alemã chamada Sarah Gronert de 22 anos e intersexual, ter removido seu pênis numa cirurgia de readequação sexual e depois do procedimento ganhar o título do torneio de Raana, em Israel no início de março daquele ano 

O caso Sarah Gronert causou impacto nas discussões sobre gênero no esporte depois do título, pois como todos nesta altura do campeonato já sabe, um indivíduo intersexo nasce em alguns casos com sua genitália ambígua e desde cedo se tenta readequá-lo como masculino ou feminino (ver mais aqui e aqui). No caso de Sarah ela era uma hermafrodita verdadeira possuindo os órgãos dos dois gêneros . A tenista sempre se viu como uma mulher e compete no tênis há alguns anos, porém isso não foi suficiente para convencer os adversários depois que eles ficaram sabendo da condição de SarahJogadoras e técnicos que competem diretamente com com a alemã alegam que ela tem muitas características masculinas e isso daria uma vantagem física maior a atleta na hora do embate. O técnico Schlono Tzoref, técnico da jogadora Julia Glushko, na época em entrevista ao New York Daily disse sobre Sarah: “Não há nenhuma garota que pode bater um serve¹ como essa, nem mesmo a Venus Williams² [...] Isso não é uma mulher, é um homem. Ela não tem o poder de uma mulher, nenhuma mulher tem esta técnica.” Segundo o técnico se ela continuasse assim em pouco tempo ela estaria entre as 50 melhores no ranking mundial da WTA. 

Fonte: http://goo.gl/lJO5H6

            Apesar das críticas feitas pelo técnico israelense, é possível conceber que o caso de Sarah não é tão desleal assim, pois ela ainda estava em ascensão e sua posição no Ranking da WTA era a 619º ainda bem abaixo das tenistas top's. Mencionando o Alexandre Cossenza da Globo.com  Sarah já estava com 22 anos e esta é uma idade avançada para a elite do Tênis, outra coisa não precisa ser homem pra sacar forte, pois será que todos os homens conseguem sacar com tanta potência como Venus Williams?

Veja este vídeo de Sarah  e tire suas próprias conclusões ( A tenista Joga a cima no vídeo)

Outro ponto curioso neste caso de Sarah foi a adoção do acontecido como bandeira de luta pelos  transexuais  pelos direitos LGBT, porém isso causou um mal-estar não só na atleta que poderia ser prejudicada em seu esporte, como também nos intersexuais que defendiam que a atleta não era um homem que fez uma cirurgia para virar mulher e sim um intersexual que se adequou ao gênero ao qual se identificava a muito tempo (para saber mais sobre o assunto veja aqui). 


Apesar das alegações dos adversários a WTA já tinha investigado o caso de Sarah Gronert e sua petição para continuar disputando oficialmente os campeonatos femininos de tênis foram todos aceitos pelo órgão regulador. Três anos antes em 2006, Sarah era a 619º no ranking e quase abandonou as quadras oficiais da WTA após ter sido alvo das mesmas críticas, porém continuou aparecendo em três torneios até 2009 vencendo dois, o de Raana em Israel e o de Kaarst na Alemanha. Hoje não temos muitas notícias sobre como está a carreira da atleta, porém no ranking da WTA Sarah Gronert aparece em 2012 como a 237ª colocada.


Veja esta entrevista com Sarah Gronert após o seu segundo título
na modalidade simples na Inglaterra.

Sarah Gronert não foi à única no mundo do esporte a atrair olhos curiosos por ser intersexual, em breve veremos o caso de uma atleta de ponta que quase perdeu uma medalha por causa disso. Curioso? Fique ligado!




¹ Serve: Lance do inicial do tênis equivalente ao saque no vôlei, onde um jogador arremessa a bola, geralmente muito forte em direção ao seu adversário.
² Vênus Williams: Umas das principais atletas da modalidade que na época ocupava o 1ª lugar no Ranking mundial feminino do tênis. 




Referências:  

http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Tenis/0,,MUL1051760-15090,00.html
http://globoesporte.globo.com/platb/saqueevoleio/2009/03/20/que-vantagem-e-essa/

As lutas dos intersexuais pelo mundo:

Ao redor do mundo existem inúmeras organizações que trazem a intersexualidade para plano principal - são as chamadas Organizações Internacionais dos Intersexuais (OII) - nesse site você pode ser direcionado para os blogs das OII´s de vários países, inclusive o site brasileiro.  

Fonte: http://bit.ly/1et2bzB


As OII´s trazem como Principios Fundamentais, dentre outros: a rejeição pela categorização dos intersexuais em termos médicos, aos discursos de impossibilidade de desenvolvimento humano em condições “bi-compartimentadas” socialmente de modo sexista. Além disso, advogam a favor do “direito a seu corpo, a seus genitais e a sua auto-identificação, de forma autônoma.”  sem a interferência “autoritárias e heterônomas” sobre este e a sua identidade. Para ler todos os principios fundamentais, clique aqui.


Outra questão bastante importante a ser trazida aqui é a condição de falta que rodeia os indivíduos intersexuais. Por conta da desinformação e, principalmente, da rejeição por meio da sociedade a indivíduo em condições “atípicas”, as pessoas intersexuais vivem em condições de pobreza e descuido (leia esta entrevista com @ ativista e terapeuta intersex Mani Mitchell sobre a pobreza e pessoas intersex).


“Quando você não faz parte da sociedade, é difícil prosperar. Coisas simples como acesso ao trabalho remunerado, um lugar seguro para viver, cuidados médicos adequados, são todos conectados. Temos pouquíssimos dados sobre quantas pessoas apenas existem de uma forma muito triste, como muitos jovens simplesmente desistem, como muitos outros se perdem num mal-estar mental, no abuso de drogas e álcool…”


Por fim, quero trazer novamente a questão das intervenções cirurgicas e medicamentais como ponto-chave no debate dos movimentos intersexuais. Já falamos sobre as intervenções médicas Aqui (de forma mais explicativa) e Aqui (fazendo uma análise do discurso de poder biomédico sobre as cirurgias). Descontruir uma ideia “humanidade sexuada” (você é, antes de tudo, homem ou mulher), tão fortemente adotada na nossa cultura, parece ser um primeiro passo para a despatologização de indivíduos que não conseguem se encontrar em categorias físicas e “socialmente naturalizadas” de ser humano. A busca, por movimentos intersexuais ao redor do mundo, pela aceitação e autonomia sobre o próprio corpo propõe que as cirurgias de readequação sexual consideradas “necessárias” (sem de fato o serem - considerando o não risco à vida do indivíduo) sejam repensadas, relativizadas e evitadas, até possibilidade de conhecimento e escolha do próprio sujeito intersexual, em fase posterior de sua vida. Conceder ao intersexual a escolha principal sobre o seu próprio corpo e sua identidade se mostra fundamental para se começar a pensar, de fato, em igualdade de direitos (Falaremos em breve sobre questões legais envolvendo indivíduos intersexuais e os limites para essa igualdade de direitos) e respeito a multiplicidade dos corpos.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O manejo clínico diante das cirurgias reparadoras e seus preceitos éticos

Fonte: http://migre.me/hJaoi
Um dos pontos mais polêmicos que permeiam a vida de um ser intersexual, tanto em questões individuais, existenciais, de pertença e identificação como também em questões de produções de saberes, envolvendo contextos históricos, políticos e científicos, é a intervenção cirúrgica de readequação sexual nos indivíduos classificados como portadores da chamada "Anomalia de Diferenciação Sexual" (ADS).

            Para entender um pouco melhor sobre as cirurgias de readequação sexual, é bom mergulhar na história e saber quando tais práticas começaram a se fixar no meio médico. Já a partir do século XIX é possível encontrar vários registros médicos documentados sobre intersexos, que na época, a nomenclatura vigente ainda era hermafroditismo. Os avanços da medicina social foram importantes para que se ampliasse o acesso e mais pessoas procurassem os médicos para que fossem resolvidos problemas como dores abdominais, impossibilidades de coito, problemas no desenvolvimento das genitálias entre outros, favorecendo o surgimento da ginecologia que facilitou a identificação dos corpos e com isso, a medicina entrou em contato com um grande número de hermafroditas. Por mais que os registros das técnicas e procedimentos para esta prática datem do início do século XX e sejam escassos, sabe-se que em 1912 fora feita a primeira mastectomia em uma mulher que tinha o objetivo de virar homem. Em outro caso, em 1921, Dora se submeteu a um processo cirúrgico e ficou conhecida como a primeira transexual sofrendo uma penectomia, que no caso, seria a extirpação do pênis e a partir daí, outras pessoas também se submeteram ao processo onde se  justificavam normalmente como um erro da natureza e por muito tempo, tais cirurgias eram consideradas criminosas, coisa que na França só veio a ser descriminalizada em 1979.

            Existem duas propostas de manejo clínico formuladas e direcionadas para intersexuais ainda no século XX, o Modelo Centrado no Sigilo e na Cirurgia (MCSC) de John Money (1972) e o Modelo Centrado na Pessoa (MCP) de Milton Diamond (1997). O primeiro, parte da endocrinologia diante das descobertas da fase híbrida embrionária e então admite que há na realidade um bissexualismo inato que está construído em um espectro que vai do masculino até o feminino, porém traz a cirurgia estética como forma de encaixe social ganhando condição de prevenção à estigma, trazendo como momento propício, até 24 meses para evitar o desconforto gerado entre a ambiguidade genital e o meio social. 
   
  “O recém-nascido com genitália ambígua representa um problema urgente, que deve ser resolvido de modo rápido e preciso. Caso contrário, pode se instalar uma tragédia social duradoura por toda a vida, tanto para o paciente, quanto para a família.” Guerra & Guerra Jr.

    Já o Modelo Centrado na Pessoa traz a ideia de que não há nada que precise ser curado e desconstitui a ideia de que há alguma patologia presente no paciente partindo do pressuposto de que o sexo é uma interação entre o meio social e biológico. Diamond sugere que a cirurgia deve ser evitada ao máximo até que o paciente tenha a capacidade de opinar e ter gerência sobre seu próprio corpo. 

     Antes de qualquer tipo de intervenção, os modelos biomédicos trazem a importância da “descoberta do sexo no paciente”, pois nos casos de ambiguidade da genitália, não se sabe ao certo o que é, já que não são claramente nem masculino, nem feminino, e todo processo se caracteriza por ser muito confuso. Assim começa-se uma investigação da equipe médica que leva em consideração os seguintes aspectos do paciente intersexual:   


Fonte: Doc: Nem Homem nem Mulher.
  1. DNA nos cromossomos, se é masculino ou feminino; 
  2. Se possui ovários ou testículos;
  3. Presença ou ausência do útero e trompas. 
  4. Quais os hormônios o corpo produz e assim;
  5. Tentam determinar como as genitálias vão se desenvolver
  

Alves e Tubino (2003) descaracterizam a ambiguidade da genitália como patológico e traz como uma emergência social em volta daquilo que não há definição, baseado no estigma que carrega e qualifica as intervenções cirúrgicas como a conclusão de um processo que não foi concluído, fazendo questão de distanciar do entendimento de que seria uma construção do sexo que se encontra anômalo.
Ainda os autores – Alves e Tubino (2003) –, aconselham que em relação à definição sexual, devem ser entendidas através da viabilização da fertilidade e pela vida sexual ativa quando na fase adulta. No caso do pseudo-hermafroditismo:

“Se o paciente ainda for recém nascido ou lactante, é aconselhável que permaneça no sexo feminino, já que o testículo não é funcional e a infertilidade é regra. Se o paciente for maior de dois anos de idade e o sexo de criação for masculino, faz-se correção da genitália nesse sentido.” (Alves e Tubino, 2003)
E em relação ao hermafroditismo verdadeiro:

“Existe maior tendência para a escolha do sexo feminino, já que, na maioria das vezes, o tratamento e o resultado cirúrgico são os mais adequados.” (Alves e Tubino, 2003)

         Quando se discute sobre o que é o sexo verdadeiro, os autores trazem cinco tipos de sexo: O sexo genético; O sexo cromossômico; O sexo gonadal; O sexo fenótipo; E o sexo psicossocial. Sendo todos esses colocados de forma que um agindo sobre o corpo para originar o outro. Seguindo esta perspectiva, o sexo psicossocial seria resultado de todos esses sexos, sendo originado de modo que se formasse uma cadeia, caracterizando o sexo psicossocial como o que o indivíduo irá se reconhecer como tal.
Quanto a questão ética que se envolve, o Conselho Federal de Medicina através da Resolução Nº1.664/2003 define as normas técnicas necessárias para o tratamento de pacientes portadoras de anomalias de diferenciação sexual (ADS). Considera que “o alvo da atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”.
O Conselho Federal de Medicina descreve algumas recomendações de como o médico deve fazer o manejo diante de casos de ADS, tal qual uma investigação aprofundada com exames de dosagens hormonais, citogenéticos, imagem e anatomopatológicos e regulamenta que para uma adoção do sexo é preciso que haja o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar com clínico geral e/ou pediatra, psicólogo, endocrinologista (pediátrica), cirurgião, psiquiatra e geneticista e a critério da equipe, outros profissionais podem fazer parte para que deem apoio ao paciente e à família/responsável legal informando com lealdade o problema e suas implicações. Tendo condições, o paciente deverá participar ativamente junto da escolha.

Referências:
ALVES, E.; TUBINO, P. Pediatria Cirúrgica. Brasília: Editora UNB, 2003.
DIAMOND, M. (1997). Sexual identity and sexual orientation in children  with traumatized or ambiguous genitalia. Journal of Sex Research, 34(2), 199-222.
GUERRA-JÚNIOR, G. (2002). Hermafroditismo verdadeiro. Em A.T. Maciel-Guerra & G. Guerra-Júnior (Orgs.), Menino ou Menina? Os Distúrbios de Diferenciação do Sexo (pp. 53-57). São Paulo: Editora Manole.
MONEY, J, & EHRHARDT, A. Man and Woman, Boy and Girl: Differentiation and dimorphism of gender identity from conception to maturity. Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1972.
Resolução CFM Nº 1.664/2003 http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2003/1664_2003.htm Acessado em 31 de fevereiro de 2014.


SILVA, Raquel Lima de Oliveira e (2010). Entre a norma e a natureza: A construção da intersexualidade. Brasília.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Intersexualidade e mídia: Filme "XXY"




     Dirigido por Lucía Puenzo, XXY traz a história de Alex (Ines Efron), uma garota intersexual que vive com sua mãe Suli (Valéria Bertuccelli) e seu pai Kraken (Ricardi Darín) num vilarejo no Uruguai. A família recebe a visita do casal Erika (Carolina Pelleritti), seu marido, o cirurgião Ramiro (German Palacios) e seu filho de 16 anos, Alvaro (Martin Piroyansky) em sua casa.

     O filme traz uma série de situações pertinentes ao mundo da intersexualidade, muitos dos quais já trouxemos aqui para discussão. A questão da sexualidade está sempre presente em Alex, desde suas conversas com Alvaro sobre masturbação, seu interesse por sexo, até as temáticas da identidade de gênero e orientação sexual.( Leia nossa postagem sobre Sexo, Identidade de Genero e OrientaçãoSexual) Alex, logo no início do filme demonstra não ter vontade de tomar os medicamentos que inibem sua masculinização, assim como afirma não querer passar por cirurgias reparadoras e além disso passa a sentir interesse por Álvaro, que também retribui o sentimento. 
Outro aspecto importante trazido no drama é o estigma sofrido por Alex. O fato da família ter se mudado para um lugar mais distanciado da cidade já é um motivo pelas pressões sofridas para que a garota passe pela cirurgia reparadora. Além disso, sua condição intersexual passa a ser descoberta pelos moradores do vilarejo, que agem de forma discriminatória e invasiva.




      A questão familiar é outro ponto importante. A mãe convida a família pensando numa possível intervenção cirúrgica de Alex, pois acredita que este talvez seja um desejo da garota, que poderá ser socializada de forma "normal". O pai, Kraken, por outro lado, se mostra intransigente à ideia. Uma cena interessante é a da conversa entre Kraken e um intersexual que vive como homem depois de uma cirurgia reparadora. Este fala sobre suas vivências anteriores, sobre suas escolhas e como foi passar pela intervenção médica. Para saber mais sobre este tema, leia esta postagem a respeito das cirurgias reparadoras e suas implicações.

      XXY é um filme que retrata as angústias e as formações subjetivas de sujeitos intersexuais e promove uma discussão muito rica sobre as singularidades da formação de cada ser humano. É também um retrato da sociedade que estranha, repudia e tenta normatizar o incomum. Alex, quando seu pai lhe tranquiliza ao afirmar que dará tempo para ela escolher o que quiser ser, responde de forma simples e que poderia ser até inconcebível para muitos: "E se não tiver o que se escolher?". 

      O filme está disponível na aba "Links Relacionados", do lado direito do blog.



A Escolha do Sexo e o Discurso Médico


Fonte: http://goo.gl/Uvf2tw
    Hoje iremos falar da cirurgia como sendo um dispositivo (de saber/poder) que leva o sujeito intersex a se enquadrar em um dos sexos que é determinado socialmente. A procura dessa determinação social do sexo se dá a partir de uma concepção de corpo “normal” estabelecida no mundo, e que consequentemente permeia o discurso médico fazendo com que a partir dessa concepção de corpo “normal” se justifique a total autonomia para se (re)construir e controlar os corpos intersex, tornando-os inaceitáveis dentro de um padrão social determinista. Essa “correção” dos corpos se dá muito mais em função do discurso social e médico de que é preciso identificar as pessoas a partir de um gênero (masculino ou feminino) do que em função (na maioria das vezes) da real saúde das crianças, aonde se procure contemplar em primeiro lugar o bem estar biopsicossocial desse indivíduo. Como nos diz o grande filósofo Platão, O homem é um todo integral e indivisível”, por isso o perigo de não pensar esse sujeito em todas as esferas constituintes possíveis de seu desenvolvimento. Veremos mais adiante, um pouco sobre o que vem a justificar a prática da cirurgia em crianças portadoras de anomalia de diferenciação sexual (ADS). Será que é válida a justificativa dada para as intervenções cirúrgicas em todas as crianças intersexuais?

    Iremos ver a partir de agora que o Conselho Federal de Medicina (CFM) já tem bem estabelecido todos os critérios e decisões sobre o adequamento sexual (do ponto de vista anatômico/funcional) dos portadores de ADS. E embora haja pessoas que sejam contra a redesignação sexual pautada predominantemente no prognóstico anatômico padronizado e na adequação funcional do sexo, por não contemplar as variadas e possíveis esferas do desenvolvimento citadas no parágrafo acima e dentro dessa esfera principalmente o desenvolvimento psicológico desse sujeito, a própria instituição como sendo um instrumento de poder na sociedade vem a estabelecer uma possibilidade de “verdade” sobre o sujeito, que determina como ele deve ser de acordo com padrões ditos “normais” pré-estabelecidos. O Conselho Federal de Medicina vem a sustentar em seu discurso essa possibilidade, como se sexo e gênero estivessem naturalmente inscritos no corpo. A Resolução Nº 1.664/2003, do Conselho Federal de Medicina, é um documento que guia a prática médica. Esse documento trás de forma definida as normas técnicas necessárias para o tratamento de pacientes portadores de anomalias de diferenciação sexual. Nesta Resolução constam todos os critérios para diagnóstico e realização de cirurgias em pessoas com genitália ambígua.(Para mais informações sobre esse discurso que procura normatizar os corpos dos indivíduos intersexuais ver link da Resolução).
    
   Segundo Foucault “o discurso veicula e produz poder”, poder esse que percebemos exercido sobre os intersexuais em forma de discurso como observado num artigo publicado por Méllo et al (2009) no XV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO quando:

“os médicos indicam cirurgias “reparadoras” precocemente, afirmando que as crianças possuem a genitália incompletamente formada e que através da cirurgia as correções serão realizadas. Além das cirurgias, hormônios são prescritos, dilatações vaginais são feitas regularmente para que estes corpos possam ser normalizados.”


    Embora esse saber/poder instituído no/pelo discurso biomédico prevaleça na sociedade ocidental como uma forma de controle sobre os corpos intersexuais, não devemos negligenciar que se promova o acompanhamento multiprofissional do sujeito intersexuado; em prol de uma abordagem preventiva há que se considerar a especificidade e complexidade de cada caso, visto que, há também casos que precisam de intervenção urgente, por exemplo, quando ocorre risco de vida para a criança, conforme mostra a Resolução Conselho Federal de Medicina Nº 1.664/2003 (link da resolução). Isso inclui reconhecer que em certos casos seja realmente preciso fazer a cirurgia na criança, sendo esta a orientação mais adequada a ser tomada. Contudo, há casos em que as possibilidades são mais diversificadas e, portanto, nestes não se deve ficar sob o jugo normalizador e controlador vigente, cuja primazia possa ser não bem a saúde integral da criança e sim a ansiedade dos envolvidos, em querer enquadrar a criança dentro de um padrão estabelecido como sendo “normal”.
    

Fonte: http://goo.gl/WFSvUE
   A partir de uma suposta “verdade” do sujeito a respeito do sexo, na medida em que a intersexualidade passa a ser concebida como consequência de uma desordem orgânica (hormonal, genética ou de outra ordem) e até mesmo como “doença” em si, o intersexo passa a ser inscrito nessa sociedade como uma questão biomédica. Uma das coisas que podemos notar é que na sociedade ocidental, o intersexo passa a ser circunscrito dentro dessa lógica, favorecendo, por exemplo, a tomada de decisão para se realizar cirurgias precocemente (como já citado a cima). Nesta sociedade a realização dessas cirurgias, de forma precoce, passam a ser consideradas como uma conduta legitima, socialmente aceita e como sendo a melhor opção. O Conselho Federal de Medicina determina em sua Resolução (Resolução Conselho Federal de Medicina Nº 1.664/2003) que a intersexualidade é uma “urgência biológica e social”, porém, há casos que não necessitam dessa urgência e que inclusive pode vir a causar danos que podem ser irreversíveis conforme nos mostra a própria Resolução citada à cima. Diante do comentado acima podemos perceber claramente as mudanças que ainda se fazem necessárias na esfera da atuação profissional em saúde.
    É digno de nota observar um artigo sobre A luta dos intersexuais na Suíça, onde o Dr. Meyrat argumenta que:

 “Considerava-se que era importante ter um tratamento rápido para inserir o indivíduo na sociedade e atender à profunda angústia dos pais. Posteriormente estudos começaram a demonstrar que os resultados da cirurgia não eram nem simples nem satisfatórios”.
    

   Quando elas são irreversíveis, essas intervenções podem de fato causar danos se o sexo atribuído não corresponder ao mental, e isso é o que é visto em depoimentos de pessoas que passaram por essa experiência dolorosa (para mais informações ver: A Luta dos intersexuais na Suíça).

    De acordo com Moara Santos e Tereza Araújo (2003) no artigo A Clínica da Intersexualidade e seus Desafios para os Profissionais de Saúde:

“Quando se enfatiza a urgência operatória, transmite-se a ideia de que existem riscos para a saúde da criança, podendo ser este um fator que confunde a família, pois, na realidade, é raro existir tal condição. Na maior parte dos casos, a decisão pode ser adiada do ponto de vista médico. A intervenção profissional em tal contexto de espera, dúvida e ansiedade provê alívio aos pais quanto ao sexo no qual criar a criança, endossando a proposta adotada pelo profissional médico, além de gratificar a equipe de saúde por ter 
condições de oferecer algum conforto para a família”.


      
Fonte: http://goo.gl/OP0r1e
    Este discurso biomédico de que estamos falando é pautado em padrões biológicos culturalmente delimitados, onde a função do médico é a partir desses padrões descobrir qual o “verdadeiro” sexo da criança intersexual. Isso sugere uma suposição de que pessoas na condição de intersexualidade, não poderiam gozar de uma boa satisfação de suas vidas, assim como gozam as pessoas “normais”; não seriam totalmente satisfeitas por não poderem se desenvolver plenamente. O que vemos, é que as condições biológicas dos sujeitos intersexuais, diante do discurso vigente, acabam abrindo espaço para as práticas de reconstituição dos órgãos sexuais como algo de extrema relevância para a consolidação do “verdadeiro sexo”. Esse discurso procura agregar esforços em direção à definição do sexo do sujeito intersexual, moldando estes a cultura binarista de nossa sociedade. Diante do enunciado acima, os profissionais de saúde e os familiares, visando a promover a integridade física e emocional do intersexual, são levados a justificar (alguns até mesmo inconscientemente) a prática cirúrgica do ajustamento do corpo ao gênero designado, como sendo esta a melhor opção, ainda que muitas vezes a decisão seja tomada precocemente em casos sem necessidade de urgência.
     Moara Santos e Tereza Araújo (2003) também trazem uma informação instigante sobre um roteiro proposto por Diamond e Sigmundson onde neste há uma afirmação em que os profissionais de saúde e demais envolvidos em casos clínicos de sujeitos intersexuais (principalmente crianças) deveriam tomar como exemplo, o roteiro diz o seguinte:
“temos que ser ’autoridades’ em prover informação e aconselhamento, e não ser ‘autoritários’ nas nossas ações. Devemos permitir ao paciente pós-púbere um tempo para considerar, refletir, discutir e avaliar e, só então, ter a última palavra na modificação de sua genitália, papel de gênero e designação sexual final”.

     Se passarmos a observar melhor e também tentarmos compreender a intersexualidade por esse outro ângulo poderemos caminhar no sentido de uma corroboração bem mais favorável à adaptação integral do indivíduo intersexual e sua inserção nessa sociedade ainda hoje binarista.


Haverá uma postagem mais adiante que trará mais informações sobre como se dá o manejo das cirurgias reparadoras. Aguardem!

Referência bibliográfica


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ampliando as discussões sobre gênero: Algumas perspectivas teóricas e um diálogo com os estudos sobre intersexualidade II

(Continuação) Construcionismo Social, modelos feministas e Teorias das Representações sociais: Contribuições para uma nova psicologia do gênero.

     É nesse sentido que o Construcionismo social vai ganhando espaço e cada vez mais repercussão no cenário das ciências sociais e nas discussões sobre gênero. As teóricas feministas dos anos 60 e 70 em particular trouxeram as reflexões a respeito do conceito de gênero para primeiro plano. Como afirma Crawford  (1995) citada em Nogueira (2001, p. 142) “A distinção entre os termos sexo e gênero, sugerida e desenvolvida durante a segunda onda do feminismo, foi uma tentativa (significativa) de separar o sexo biológico do social  o gênero  e, desse modo, possibilitar a crítica social.” No entanto, a mesma autora faz uma crítica ao identificar discursos novos de “diferenças sexuais” como uma nova “roupagem” das mesmas condições essenciais inerentes ao indivíduo, ou seja,“ De modo irônico, uma pretensão feminista, que visava teorizar a construção social da masculinidade e da feminilidade, passa a ser a estratégia que a obscurece (Crawford, 1995 apud Nogueira (2001, p.142).

Simbolo feminista
Fonte: Google Imagens
   É a partir dessas críticas sobre um modelo feminista empiricista que sustenta, ironicamente, o paradigma dualista e biológico de gênero, que surge um terceiro movimento, pós-modernista, por volta dos anos 80. Conforme Nogueira (2001, p. 144) “Discute-se agora a existência de identidades essencializadoras e focaliza-se a atenção na construção social das categorias que são usadas para analisar e compreender o mundo social.”

   Essa nova perspectiva irá adotar um posicionamento, diferentemente do feminismo empiricista já mencionado, de “negação a uma verdade universal e absoluta” (Flax, 1990; Harding, 1990; Rosenau, 1992) apud Nogueira (2001, p.144).
   Passa-se então a pensar um gênero pertencente a um discurso político, social, mantenedor de uma ordem vigente, desvinculado de uma essência biológica e fortemente articulado a uma linguagem e a relações sociais.



Fonte: Google Imagens
   “Assim, o pós-modernismo aceita a multiplicidade, a incoerência e o paradoxo, tudo o que os paradigmas positivistas sempre excluíram. Nega a aparente rigidez da linguagem sobre os significados estabelecidos, e é céptica acerca da natureza fixa da realidade. Reconhecendo que o significado é apenas aquilo com o que concordamos, os pós-modernistas descrevem um sistema mais amplo de possibilidades, contexto em que o gênero é encarado como passível de versões parciais e paradoxais.” (Nogueira, 2001, p. 145)

   Outro movimento contemporâneo aos movimentos feministas empiricista e pós-modernista, a Teoria das Representações Sociais (TRS), proposta por Moscovici na década de 60 ganharia fama apenas duas décadas depois em virtude dos novos arranjos sociais e novos “atores sociais” que “explicitam energicamente suas demandas, propondo à ciência novos conceitos a incorporar na análise da realidade, como o de gênero, ou levando-a a repensar categorias para poder levá-los em consideração como é o caso da noção de novos movimentos sociais.” (Arruda, 2002, p.129)

    Arruda (2002) faz uma ponte entre as teorias feministas e a Teoria das Representações Sociais, salientando ambas “propõem teorias relacionais, em que não se pode conhecer sem estabelecer relação entre o tema/objeto e o seu contexto. Gênero é uma categoria relacional, na qual, ao se levar em conta os gêneros em presença, também se consideram as relações de poder, a importância da experiência, da subjetividade, do saber concreto (Idem, 2002, p. 133).

    Trazendo as discussões para os casos de Intersexualidade:

    A intersexualidade se encontra profundamente relacionada a tais discussões, tendo em vista que sobre seu fenômeno perpassam questões complexas, envolvendo por exemplo a percepção corporal, o papel de gênero, a socialização e a identidade sexual dentre outras questões fundamentais. É nesse sentido que os estudos de gênero são pertinentes pois implicam em uma reflexão crítica e rica acerca da intersexualidade, além de se pensar na melhor forma de lidar com tais sujeitos, contribuindo para sua melhoria de vida.
Entretanto, apesar de os estudos sobre gênero serem pertinentes para se pensar a pluralidade de identidades nos sujeitos, ainda são escassos os estudos que fazem a correlação entre estudo de gênero e intersexualidade. Como afirma Santos, & Araujo (2008), num artigo de revisão bibliográfica sobre o tema:

  “(...) algumas considerações sobre diferenciação de identidade de gênero têm sido pobremente descritas, principalmente em relação às etapas do ciclo vital. Muitos trabalhos revelam que é comum existir crise de identidade de gênero entre adolescentes intersexuais, sendo possível que no início da idade adulta o “período de risco” ainda não tenha sido superado. Por essa razão, parece essencial a realização de estudos desenvolvimentais mais extensos visando ampliar a compreensão sobre diferenciação de gênero entre os indivíduos intersexuados.”

  De que modo, então, o atendimento ao indivíduo intersexual e sua família poderá ser facilitado pelos profissionais envolvidos nos manejos clínicos?
Deve-se considerar, primeiramente, que cada caso é um caso específico, que necessita de procedimento particular. É primordial levar em consideração as formações subjetivas do indivíduo intersexual. Além disso, considerar que a construção de identidade sexual e de gênero é um fenômeno complexo e que vai muito além de uma escolha primeira de definição sexual, ou seja, “É necessário insistir que a satisfação com o sexo designado nem sempre está associada à identidade de gênero.”(Santos; Araújo, 2008, p.271) e que vários fatores estarão relacionando esta satisfação com as práticas vivenciadas, a aceitação, e um tratamento adequado recebido pelo indivíduo intersexual.

   É nesse sentido que, segundo Santos e Araújo (2008, p. 272), é preciso insistir que a “compreensão de fenômenos complexos, como o desenvolvimento de identidade de gênero e sexual exige uma visão pluralista – teórica e metodologicamente – que leve em conta o ciclo de vida, em particular seus momentos de transição”. Dessa forma, em relação especificamente ao profissional da Psicologia, cabe um papel fundamental de acompanhar o indivíduo intersexual e sua família neste processo de construção da sua subjetividade, de maneira mais saudável e com uma visão livre de convenções pre-estabelecidas, que prendem o sujeito intersexual em uma construção de identidades que lhe fogem a escolha.  


Referências:
ARRUDA, Angela. Teoria das representações sociais e teorias de gênero. Cad. Pesqui.,  São Paulo,  n. 117, dez.  2002 .   Disponível em  http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15555.pdf


COSTA e OLIVEIRA.A sexualidade segundo a teoria psicanalítica freudiana e o papel dos pais neste processo. Revista Eletrônica do curso de pedagogia no Campus Jataí - UFG. Vol 2 n. 11, 2011. Disponível em: https://revistas.ufg.br/index.php/ritref/article/viewFile/20332/11823


Menezes, Aline Beckmann, Brito, Regina Célia Souza, & Henriques, Alda Loureiro. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 26(2), 245-252. Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722010000200006

NOGUEIRA, Conceição. Contribuições do construcionismo social a uma nova psicologia do gênero. Cadernos de Pesquisa-Revista de Estudos e Pesquisa em Educação / Fundação Carlos Chagas, São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 112, p. 137-153, mar. 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/n112/16105.pdf


SANTOS, M. F. e BELO. I. (2000).v Diferentes formas de velhice. Psico. vol 31, n. 2,
p. 31-48.

SANTOS, Moara de Medeiros Rocha. Desenvolvimento da identidade de gênero em casos de intersexualidade: contribuições da Psicologia. 2006. 246 f. Tese (Doutorado em Psicologia)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006.
 http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=362

Santos, M. de M. R. & Araujo , T. C. C. F. de (2008). Estudos e Pesquisas sobre a Intersexualidade: Uma Análise Sistemática da Literatura
Especializada.


Paiva, Vera. (2008). A psicologia redescobrirá a sexualidade?. Psicologia em Estudo, 13(4),641-651. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-73722008000400002&script=sci_arttext

PARISOTTO, Luciana et al. Diferenças de gênero no desenvolvimento sexual: integração dos paradigmas biológico, psicanalítico e evolucionista. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul [online]. 2003, vol.25. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082003000400009&lng=en&nrm=iso&tlng=pt



Ampliando as discussões sobre gênero: Algumas perspectivas teóricas e um diálogo com os estudos sobre intersexualidade I

   Do Essencialismo ao Construcionismo Social: Perspectivas teóricas da Psicologia nas relações de gênero.

    John Gagnon e Richard Parker, citados por Paiva (2008, p. 643) atribuem ao período compreendido entre 1890 e 1980 o que eles chamam de “período sexológico”, onde iniciou-se uma pretensão de se trazer o estudo da sexualidade ao campo científico. Durante as primeiras décadas desse período, produziram-se discursos normatizadores sobre uma sexualidade poderosa, instintiva e pulsional que se opunha à civilização e à cultura. Dentre os principais autores desse período, esses autores citam Freud (e seguidores), Ellis, Hirschfeld, Malinovsky, Stopes, Reich, pesquisadores do Instituto Kinsey, Margareth Mead, Masters & Johnson.

    Algumas abordagens teóricas pensaram a sexualidade (aqui englobada de uma maneira geral e não apenas pensando no ato sexual) e elaboraram teorias explicativas para seu funcionamento na espécie humana. Essas abordagens divergem em muitos aspectos, em outros se encontram e em algumas teorias se completam.

     Pensando a partir da Psicologia evolucionista, o critério básico para se determinar um comportamento (pense aqui no comportamento sexual) é o da seleção natural de elementos mais vantajosos para a perpetuação da espécie. Como afirma Parisotto (2003, p.77): “A Psicologia evolucionista (...) Parte do princípio de que os padrões comportamentais são respostas motoras pré-estabelecidas que sofreram pressões da seleção natural e que influenciaram o comportamento social de membros da mesma espécie..”.  
Diferenças de gênero: uma questão evolutiva?
Fonte: Google Imagens.

    "Dessa forma, a diferença entre gênero seria, a partir do critério evolutivo, mais um elemento selecionado e vantajoso para a perpetuação da espécie humana. Para este paradigma, não há diferenciação entre os conceitos sexo e gênero, pois “comportamentos típicos de um gênero estariam invariavelmente associados ao sexo (isto é, macho/masculino e fêmea/feminino seriam relações indissociáveis).” (MENEZES; BRITO; HENRIQUE, 2010 P. 246).

    Essa perspectiva sugere, dessa forma, que homens e mulheres se comportarão de maneiras características com tal finalidade reprodutiva, seguindo assim uma “estratégia sexual”. Traz Perisotto et all (2003, p.78):

   “O homem tenderia a estratégias de curta duração, minimizando ao máximo o comprometimento com cada fêmea, tendo desejo e freqüência sexuais aumentados e sendo capaz de detectar rapidamente sinais de disponibilidade ao sexo e fertilidade feminina. A fêmea buscaria relacionamentos mais duradouros para garantir a proteção e o investimento paterno nela e em sua prole, ou relacionamentos curtos com provedores de imediato retorno.”

   Esses discursos sobre a sexualidade resultaram então em praticas clínicas e sociais de modulação dos comportamentos considerados saudáveis, corretos ou aqueles considerados transgressores. Como afirma Paiva (2008, p. 643):

  ”As “descobertas” do período sexológico resultaram em modelos clínicos de intervenção operados por psicólogos, médicos e psicanalistas até hoje (...). A verdade sobre essa sexualidade natural e normal definiria também “a” família natural e normal. “Famílias desestruturadas” (não-naturais), para usar a linguagem que se fala na escola ou nos serviços de saúde e de assistência social, explicariam desvios de comportamento a serem tratados ou prevenidos.”

    Foucault analisa bem esses discursos de dispositivos da sexualidade através dos tempos, como produções de poder e de regulação sobre os corpos. Veja mais sobre neste post.

    Essa concepção entende a sexualidade de forma instintiva e dependente de uma maturação dos indivíduos, que resultaria então no ato sexual e na perpetuação da espécie. Segundo Costa e Oliveira (2011, p. 4) “De acordo com o tal conceito, a criança não possuiria sexualidade, essa surgiria a partir da puberdade que é quando se iniciaria a maturação biológica e o instinto sexual se formaria por meio de uma atração irresistível de um sexo sobre o outro, que se completaria pela união sexual.”

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   Para Freud (2006) apud Costa e Oliveira (2011, p.6), no entanto, “a sexualidade é construída durante as primeiras experiências afetivas do bebê. Quando nasce, a percepção do bebê é sensorial, todo contato com seus pais ou cuidadores passa a compor as primeiras sensações sexuais e será a base para a construção dos vínculos afetivos e do desejo de aprender.“

    É nesse sentido que vai se perdendo a ideia de expressão da sexualidade como um caráter evolutivo, visando apenas a perpetuação da espécie para se falar em uma sexualidade que é constitutiva do sujeito, suas relações e seu modo de vida.


    “[...] Se, por outro lado, tomarem a função de reprodução como núcleo da sexualidade, correm o risco de     excluir toda uma série de coisas que não visam à reprodução, mas certamente são sexuais, como a masturbação, e até mesmo o beijo.” (Freud, 2006 apud Costa e Oliveira; 2011, p.2)


Fonte: Google Imagens
    Assim, Num segundo momento, ao fim da década de 60, essa concepção da sexualidade com fins reprodutivos vai sendo questionada, dentre outros, por movimentos feministas e homossexuais que traziam uma perspectiva conhecida por construcionista. Tal perspectiva “re-definiu o gênero e a identidade sexual, separou a identidade das práticas sexuais, questionou o determinismo biológico, construiu a história da homossexualidade e da origem da dominação masculina.” (Paiva, 2008 p.644).

      

Continua...