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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Livro: Menino de Ouro


menino de ouro kit
   Nossa amiga Clara, do blog Infinito particular, nos recomendou um livro que estava lendo, "Menino de Ouro”, de Abigail Tarttelin, cujo personagem principal era Max, um intersexual. Este post é em agradecimento à indicação.

     Abigail conta a história de um hermafrodita verdadeiro (46xx/46xy) e seu mundo de segredos. Por pertencer a uma família influente em uma cidadezinha do interior da Inglaterra, Max teve seu segredo guardado as sete chaves, e aprendeu a não tocar neste assunto vendo o casamento dos seus pais desmoronar em frente aos seus olhos.

    O livro narra a história partindo da adolescência de Max, dando ênfase às relações carnais entre adolescentes, problematizando o início das relações sexuais para os intersexuais. A autora escreve sobre a redescoberta de Max do seu próprio corpo, a tomada de consciência do corpo intersexual.

(ALERTA DE SPOILER)
A autora mostra como o desconhecimento do corpo do intersexual pode afetar as relações do indivíduo intersexuais. Quando narra a violação do corpo de Max, que não fez nenhum cirurgia reparadora quando criança, pelo seu melhor amigo e o impasse que ele viveu após o trauma (sou um menino/menina?! Sou um menino? O que eu sou?!), o pensamento mais chocante vindo de Max é: “Mas certamente, Isso acontece com meninas”. Um ato de violência vem carregado de significados dolorosos por si só, imagine para Max, que é intersexual. É neste contexto que Max começa a se questionar, apesar de ter toda a certeza que é menino, o que faz dele menino ou não? Quem tem o direito de decidir o que ele vai ser?
Abigail ainda explora a reação da mãe de Max ao se deparar com um filho intersexual, a sensação de fracasso,de que cometeu algum erro, seguida da incerteza da longevidade do filho, de se ele vai conseguir ser feliz como intersexual, se deveria ter feito a cirurgia reparadora ou tomou a decisão certa. A reação da mãe de Max quando ele contou que estava grávido, o desespero que alguém descobrisse, o medo de perder o filho, de fazê-lo infeliz.

      É emocionante ver a realização de Max ao aceitar sua condição de intersexual, ele diz: “Meninos e meninas e pessoas intersexuais e eu somos apenas ideias, e, quando morrermos, essas ideias desaparecerão conosco.” [...] “Eu estou vivo. Isso é uma coisa boa. Estou feliz com isso. Sou intersexual e começo a aceitar melhor esse fato.”.

Enfim, é uma história muito bonita e cheia de surpresas, vale a pena a leitura! 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Intersexualidade e mídia: Filme "XXY"




     Dirigido por Lucía Puenzo, XXY traz a história de Alex (Ines Efron), uma garota intersexual que vive com sua mãe Suli (Valéria Bertuccelli) e seu pai Kraken (Ricardi Darín) num vilarejo no Uruguai. A família recebe a visita do casal Erika (Carolina Pelleritti), seu marido, o cirurgião Ramiro (German Palacios) e seu filho de 16 anos, Alvaro (Martin Piroyansky) em sua casa.

     O filme traz uma série de situações pertinentes ao mundo da intersexualidade, muitos dos quais já trouxemos aqui para discussão. A questão da sexualidade está sempre presente em Alex, desde suas conversas com Alvaro sobre masturbação, seu interesse por sexo, até as temáticas da identidade de gênero e orientação sexual.( Leia nossa postagem sobre Sexo, Identidade de Genero e OrientaçãoSexual) Alex, logo no início do filme demonstra não ter vontade de tomar os medicamentos que inibem sua masculinização, assim como afirma não querer passar por cirurgias reparadoras e além disso passa a sentir interesse por Álvaro, que também retribui o sentimento. 
Outro aspecto importante trazido no drama é o estigma sofrido por Alex. O fato da família ter se mudado para um lugar mais distanciado da cidade já é um motivo pelas pressões sofridas para que a garota passe pela cirurgia reparadora. Além disso, sua condição intersexual passa a ser descoberta pelos moradores do vilarejo, que agem de forma discriminatória e invasiva.




      A questão familiar é outro ponto importante. A mãe convida a família pensando numa possível intervenção cirúrgica de Alex, pois acredita que este talvez seja um desejo da garota, que poderá ser socializada de forma "normal". O pai, Kraken, por outro lado, se mostra intransigente à ideia. Uma cena interessante é a da conversa entre Kraken e um intersexual que vive como homem depois de uma cirurgia reparadora. Este fala sobre suas vivências anteriores, sobre suas escolhas e como foi passar pela intervenção médica. Para saber mais sobre este tema, leia esta postagem a respeito das cirurgias reparadoras e suas implicações.

      XXY é um filme que retrata as angústias e as formações subjetivas de sujeitos intersexuais e promove uma discussão muito rica sobre as singularidades da formação de cada ser humano. É também um retrato da sociedade que estranha, repudia e tenta normatizar o incomum. Alex, quando seu pai lhe tranquiliza ao afirmar que dará tempo para ela escolher o que quiser ser, responde de forma simples e que poderia ser até inconcebível para muitos: "E se não tiver o que se escolher?". 

      O filme está disponível na aba "Links Relacionados", do lado direito do blog.