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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Campeã ou Campeão: Intersexual gera polemica no tênis




Em Março de 2009 uma notícia abalou o mundo do tênis e causou uma polêmica que dividiu opiniões e virou caso de justiça desportiva com petição e análise do WTA (Woman’s Tennis Association), órgão que gere o tênis a nível mundial. O que causou tanta comoção? O fato de que uma tenista alemã chamada Sarah Gronert de 22 anos e intersexual, ter removido seu pênis numa cirurgia de readequação sexual e depois do procedimento ganhar o título do torneio de Raana, em Israel no início de março daquele ano 

O caso Sarah Gronert causou impacto nas discussões sobre gênero no esporte depois do título, pois como todos nesta altura do campeonato já sabe, um indivíduo intersexo nasce em alguns casos com sua genitália ambígua e desde cedo se tenta readequá-lo como masculino ou feminino (ver mais aqui e aqui). No caso de Sarah ela era uma hermafrodita verdadeira possuindo os órgãos dos dois gêneros . A tenista sempre se viu como uma mulher e compete no tênis há alguns anos, porém isso não foi suficiente para convencer os adversários depois que eles ficaram sabendo da condição de SarahJogadoras e técnicos que competem diretamente com com a alemã alegam que ela tem muitas características masculinas e isso daria uma vantagem física maior a atleta na hora do embate. O técnico Schlono Tzoref, técnico da jogadora Julia Glushko, na época em entrevista ao New York Daily disse sobre Sarah: “Não há nenhuma garota que pode bater um serve¹ como essa, nem mesmo a Venus Williams² [...] Isso não é uma mulher, é um homem. Ela não tem o poder de uma mulher, nenhuma mulher tem esta técnica.” Segundo o técnico se ela continuasse assim em pouco tempo ela estaria entre as 50 melhores no ranking mundial da WTA. 

Fonte: http://goo.gl/lJO5H6

            Apesar das críticas feitas pelo técnico israelense, é possível conceber que o caso de Sarah não é tão desleal assim, pois ela ainda estava em ascensão e sua posição no Ranking da WTA era a 619º ainda bem abaixo das tenistas top's. Mencionando o Alexandre Cossenza da Globo.com  Sarah já estava com 22 anos e esta é uma idade avançada para a elite do Tênis, outra coisa não precisa ser homem pra sacar forte, pois será que todos os homens conseguem sacar com tanta potência como Venus Williams?

Veja este vídeo de Sarah  e tire suas próprias conclusões ( A tenista Joga a cima no vídeo)

Outro ponto curioso neste caso de Sarah foi a adoção do acontecido como bandeira de luta pelos  transexuais  pelos direitos LGBT, porém isso causou um mal-estar não só na atleta que poderia ser prejudicada em seu esporte, como também nos intersexuais que defendiam que a atleta não era um homem que fez uma cirurgia para virar mulher e sim um intersexual que se adequou ao gênero ao qual se identificava a muito tempo (para saber mais sobre o assunto veja aqui). 


Apesar das alegações dos adversários a WTA já tinha investigado o caso de Sarah Gronert e sua petição para continuar disputando oficialmente os campeonatos femininos de tênis foram todos aceitos pelo órgão regulador. Três anos antes em 2006, Sarah era a 619º no ranking e quase abandonou as quadras oficiais da WTA após ter sido alvo das mesmas críticas, porém continuou aparecendo em três torneios até 2009 vencendo dois, o de Raana em Israel e o de Kaarst na Alemanha. Hoje não temos muitas notícias sobre como está a carreira da atleta, porém no ranking da WTA Sarah Gronert aparece em 2012 como a 237ª colocada.


Veja esta entrevista com Sarah Gronert após o seu segundo título
na modalidade simples na Inglaterra.

Sarah Gronert não foi à única no mundo do esporte a atrair olhos curiosos por ser intersexual, em breve veremos o caso de uma atleta de ponta que quase perdeu uma medalha por causa disso. Curioso? Fique ligado!




¹ Serve: Lance do inicial do tênis equivalente ao saque no vôlei, onde um jogador arremessa a bola, geralmente muito forte em direção ao seu adversário.
² Vênus Williams: Umas das principais atletas da modalidade que na época ocupava o 1ª lugar no Ranking mundial feminino do tênis. 




Referências:  

http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Tenis/0,,MUL1051760-15090,00.html
http://globoesporte.globo.com/platb/saqueevoleio/2009/03/20/que-vantagem-e-essa/

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ampliando as discussões sobre gênero: Algumas perspectivas teóricas e um diálogo com os estudos sobre intersexualidade I

   Do Essencialismo ao Construcionismo Social: Perspectivas teóricas da Psicologia nas relações de gênero.

    John Gagnon e Richard Parker, citados por Paiva (2008, p. 643) atribuem ao período compreendido entre 1890 e 1980 o que eles chamam de “período sexológico”, onde iniciou-se uma pretensão de se trazer o estudo da sexualidade ao campo científico. Durante as primeiras décadas desse período, produziram-se discursos normatizadores sobre uma sexualidade poderosa, instintiva e pulsional que se opunha à civilização e à cultura. Dentre os principais autores desse período, esses autores citam Freud (e seguidores), Ellis, Hirschfeld, Malinovsky, Stopes, Reich, pesquisadores do Instituto Kinsey, Margareth Mead, Masters & Johnson.

    Algumas abordagens teóricas pensaram a sexualidade (aqui englobada de uma maneira geral e não apenas pensando no ato sexual) e elaboraram teorias explicativas para seu funcionamento na espécie humana. Essas abordagens divergem em muitos aspectos, em outros se encontram e em algumas teorias se completam.

     Pensando a partir da Psicologia evolucionista, o critério básico para se determinar um comportamento (pense aqui no comportamento sexual) é o da seleção natural de elementos mais vantajosos para a perpetuação da espécie. Como afirma Parisotto (2003, p.77): “A Psicologia evolucionista (...) Parte do princípio de que os padrões comportamentais são respostas motoras pré-estabelecidas que sofreram pressões da seleção natural e que influenciaram o comportamento social de membros da mesma espécie..”.  
Diferenças de gênero: uma questão evolutiva?
Fonte: Google Imagens.

    "Dessa forma, a diferença entre gênero seria, a partir do critério evolutivo, mais um elemento selecionado e vantajoso para a perpetuação da espécie humana. Para este paradigma, não há diferenciação entre os conceitos sexo e gênero, pois “comportamentos típicos de um gênero estariam invariavelmente associados ao sexo (isto é, macho/masculino e fêmea/feminino seriam relações indissociáveis).” (MENEZES; BRITO; HENRIQUE, 2010 P. 246).

    Essa perspectiva sugere, dessa forma, que homens e mulheres se comportarão de maneiras características com tal finalidade reprodutiva, seguindo assim uma “estratégia sexual”. Traz Perisotto et all (2003, p.78):

   “O homem tenderia a estratégias de curta duração, minimizando ao máximo o comprometimento com cada fêmea, tendo desejo e freqüência sexuais aumentados e sendo capaz de detectar rapidamente sinais de disponibilidade ao sexo e fertilidade feminina. A fêmea buscaria relacionamentos mais duradouros para garantir a proteção e o investimento paterno nela e em sua prole, ou relacionamentos curtos com provedores de imediato retorno.”

   Esses discursos sobre a sexualidade resultaram então em praticas clínicas e sociais de modulação dos comportamentos considerados saudáveis, corretos ou aqueles considerados transgressores. Como afirma Paiva (2008, p. 643):

  ”As “descobertas” do período sexológico resultaram em modelos clínicos de intervenção operados por psicólogos, médicos e psicanalistas até hoje (...). A verdade sobre essa sexualidade natural e normal definiria também “a” família natural e normal. “Famílias desestruturadas” (não-naturais), para usar a linguagem que se fala na escola ou nos serviços de saúde e de assistência social, explicariam desvios de comportamento a serem tratados ou prevenidos.”

    Foucault analisa bem esses discursos de dispositivos da sexualidade através dos tempos, como produções de poder e de regulação sobre os corpos. Veja mais sobre neste post.

    Essa concepção entende a sexualidade de forma instintiva e dependente de uma maturação dos indivíduos, que resultaria então no ato sexual e na perpetuação da espécie. Segundo Costa e Oliveira (2011, p. 4) “De acordo com o tal conceito, a criança não possuiria sexualidade, essa surgiria a partir da puberdade que é quando se iniciaria a maturação biológica e o instinto sexual se formaria por meio de uma atração irresistível de um sexo sobre o outro, que se completaria pela união sexual.”

Fonte: Google Imagens
   Para Freud (2006) apud Costa e Oliveira (2011, p.6), no entanto, “a sexualidade é construída durante as primeiras experiências afetivas do bebê. Quando nasce, a percepção do bebê é sensorial, todo contato com seus pais ou cuidadores passa a compor as primeiras sensações sexuais e será a base para a construção dos vínculos afetivos e do desejo de aprender.“

    É nesse sentido que vai se perdendo a ideia de expressão da sexualidade como um caráter evolutivo, visando apenas a perpetuação da espécie para se falar em uma sexualidade que é constitutiva do sujeito, suas relações e seu modo de vida.


    “[...] Se, por outro lado, tomarem a função de reprodução como núcleo da sexualidade, correm o risco de     excluir toda uma série de coisas que não visam à reprodução, mas certamente são sexuais, como a masturbação, e até mesmo o beijo.” (Freud, 2006 apud Costa e Oliveira; 2011, p.2)


Fonte: Google Imagens
    Assim, Num segundo momento, ao fim da década de 60, essa concepção da sexualidade com fins reprodutivos vai sendo questionada, dentre outros, por movimentos feministas e homossexuais que traziam uma perspectiva conhecida por construcionista. Tal perspectiva “re-definiu o gênero e a identidade sexual, separou a identidade das práticas sexuais, questionou o determinismo biológico, construiu a história da homossexualidade e da origem da dominação masculina.” (Paiva, 2008 p.644).

      

Continua...